terça-feira, 19 de junho de 2012

Literatura da Periferia - O artista cidadão


Introdução


As periferias das grandes metrópoles brasileiras originaram-se nas décadas de 30 e 40, como consequência do processo de industrialização e urbanização. A periferia paulistana se constituiu num primeiro momento pela ocupação desordenada dos espaços metropolitanos pela população rural, numa disputa por espaço urbano em busca de trabalho, nem sempre bem remunerado, aliado à histórica dificuldade do poder público em criar políticas habitacionais adequadas. Fatores que levaram ao crescimento dos domicílios em favelas.

No final do século XVIII, os primeiros assentamentos eram chamados de “bairros africanos”, áreas onde ex-escravos sem terras e sem opções de trabalho morariam.

As favelas mais modernas apareceriam somente na década de 1970, devido ao êxodo rural.

Após os anos de 70 e 80, com a globalização econômica apoiada pelo projeto neoliberal, a “periferização” se ampliou para incluir setores da cidade cujos moradores foram atingidos por um processo de “proletarização”.

A ausência de políticas públicas de educação e saúde, saneamento, entre outras, aliada a má distribuição de renda e do déficit habitacional no país tornam a periferia um espaço privilegiado de pobreza e marginalidade. A violência e o tráfico de drogas tornaram-se problemas de cunho social.

A origem etimológica da palavra favela encontra-se na Guerra de Canudos. A pequena cidade de Canudos foi construída junto a alguns morros, entre eles o Morro da Favela, assim batizado em virtude da planta Cnidoscolus quercifolius (popularmente chamada de favela) que encobria a região. O nome favela ficou conhecido e na década de 1920, as habitações improvisadas, sem infraestrutura, que ocupavam os morros passaram a ser chamadas de favelas.

O presente artigo visa apresentar por meio de uma perspectiva crítica, a literatura crescente e desafiadora proveniente de locais de extrema pobreza advinda da globalização.

Analisamos a expressão “literatura marginal”, bem como os artistas dela existentes: moradores de rua, catadores de papel e escritores ditos periféricos.

Enfim, cidadãos que serviram de base para nosso estudo e entendimento no campo literário de uma “cultura da periferia”.

O objetivo desta pesquisa é a compreensão da literatura e suas expressões artísticas na sociedade e nas periferias.

As principais citações deste artigo serão de poetas e escritores independentes, que tiveram suas vidas modificadas pela arte e lutam para difundir a “literatura marginal” não só no Brasil, mas no mundo todo.






 

LITERATURA DA PERIFERIA

O ARTISTA CIDADÃO



Literatura: sf 1. Arte de compor escritos, em prosa ou em verso. 2. O conjunto das obras de determinado assunto.

Marginal: adj 1. Relativo à margem. 2. Que está a margem – sm. Pessoa mais ou menos delinquente ou anormal, que vive à margem da sociedade.

(Melhoramentos)



“Como sempre acontece a todo o momento feito por pessoas que estão ‘a margem’ as críticas vieram aos montes também, fomos taxados de bairristas, de preconceituosos, de limitados, e de várias outras coisas, mas continuamos batendo o pé, cultura da periferia feita por gente e ponto final, quem quiser que faça o seu, afinal quantas coleções são montadas todos os meses e nenhum de nós é incluído? A missão que todo movimento tem não é de excluir, mas sim de garantir nossa cultura, então fica assim, aqui é o espaço dos ditos excluídos, que na verdade somam quase toda a essência do gueto”.

(Ferréz, 2004)




A cultura da periferia reúne inúmeros poetas, ficcionistas, cronistas e ilustradores provenientes de bolsões de pobreza das grandes cidades brasileiras.

Fatores como problemas de ordem político-social impulsionam os jovens a se expressarem por meio de mensagens sobre drogas, abuso, morte, violência, discriminação contidas nas letras de música, poesia e em obras diversas. O enfrentamento de tais problemas leva a protestos sociais.

Na literatura os protestos fazem parte de uma vertente cultural mais ampla. Expressa por meio de autores diversos adquire importância de movimento artístico e fenômeno sociocultural, refletindo transformações econômicas e sociais das últimas décadas.

Usa-se a expressão “literatura marginal” para definir as obras literárias produzidas e veiculadas à margem do corredor editorial. A disseminação de tal termo no cenário cultural contemporâneo ocorreu com a revista Caros Amigos, que publicou nos anos de 2001, 2002, 2004 e 2011 matérias com os nomes de quase cinqüenta autores que vivenciaram a marginalidade e levam consigo uma ampla bagagem da cultura “marginal” (expressão de extensa tradição na história literária europeia desde o século XIX, mais que esteve em grande evidência no cenário brasileiro durante os anos de 1970 e 1980).

Uma das importantes referências para a literatura marginal, o compositor, violinista e poeta independente Hugo Paz, 23 anos, lançou em 2011 seu terceiro livro de poesias, “Rastros de Palavras”.  Responsável pela coordenação de diversos projetos na periferia de São Paulo, o autor destaca-se pelo seu posicionamento como ativista cultural.

“Na verdade era uma letra de música que transformei em poesia. Porque naquela época eu comecei a escrever algumas letras de rap, e fazia grafites desenhados no papel, inclusive participei com meus trabalhados da Semana de Arte e Cultura do Instituto Butantan”, explica Paz.

 

Recentemente, Paz publica sua terceira obra “Para desenhar outros fatos”, nela o autor assume um compromisso poético com a informação por meio de uma nova política estética literária. Nela está incluso o poder de transformar o futuro. Retrata temas como o mundo nu, de becos sem saída, dos ritos e riscos da metrópole.

“Giramundo”

Nas ruas desse

Seu Mundo de Vidro

As paredes giram

Ao redor das casas

E observam

As cenas

Compostas no moinho

Das incertezas.

A pistola

Com suas dúvidas

Calou-se

Desfrutando a oração

Do dia.

Os viciados em poesia

Bebiam mais um gole

Daquele novo poema.

O universo daquela tarde

Pegava carona

No bonde das ilusões

Sua próxima parada

Era…

Para outra dimensão.



Os artistas como Paz que começam a se envolver no hip hop, escrevem seus primeiros poemas, para então tornarem-se escritores independentes.

O hip hop tem sua vertente no rap cuja função é de protesto social, ou como incentivador para o crime. O rap em sua grande maioria traz letras de libertação, problemas de ordem político-social, bem como ideias revolucionárias. Como neste exemplo:  




RAP DO VP


... Tenho uma ideia a ser dada

Que tem que ser escutada de coração

Alô rapaziada... O lado certo da vida errada

De consciência e razão

Que tá se havendo

Vamos se ligá

O inimigo é o opressor que só faz se matá

Irmão negro revolucionário

Eu não me calo

O povo clama pelos irmãos de frente

Vivem na prática ser consciente

Mano responsa não trás

Tem a tranquilidade de resolvê conflitos

E a fidelidade como os seus amigos

E paz, justiça e liberdade

Tem que ter fé em deus

O corpo fechado

Para lutá contra quem não está do nosso lado

Povo se prepara para a luta

Contra o governo racista, filha da puta

Irmão negro revolucionário

Eu não me calo.

(Caco Barcellos, “Abusado, o dono do Morro Dona Marta” p. 497)



Em 1997, São Paulo e o Brasil possuía o terceiro maior índice de homicídios das Américas, a taxa de desemprego entre jovens da periferia que passava de 30% e um habitante do bairro paulistano do Capão Redondo chegava a ter 12 vezes mais chances de ser assassinado do que um morador de outra parte da cidade. Nesta época, o universo do hip hop foi expandido após o lançamento do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s. Abriu espaço não só na periferia, mas também nas classes médias em grandes áreas metropolitanas especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Os principais artistas desse movimento além dos Racionais são: MV Bill, Thaíde e DJ Hum, Xis, Rappin’ Hood, entre outros.



Periferia é Periferia



Racionais MC's

Esse lugar é um pesadelo periférico
Fica no pico numérico de população
De dia a pivetada a caminho da escola
A noite vão dormir enquanto os manos "decola"
Na farinha... hã! Na pedra... hã!
Usando droga de monte, que merda, hã!
Eu sinto pena da família desses cara
Eu sinto pena, ele quer mais, ele não pára
Um exemplo muito ruim pros moleque
Pra começar é rapidinho e não tem breque
Herdeiro de mais alguma Dona Maria
Cuidado senhora, tome as rédias da sua cria
Porque chefe da casa trabalha e nunca está
Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar
O trabalho ocupa todo o seu tempo
Hora extra é necessário pro alimento
Uns reais a mais no salário
Esmola de patrão cuzão milionário
Ser escravo do dinheiro é isso, fulano
Trezentos e sessenta e cinco dias por ano sem plano
Se a escravidão acabar pra você
Vai viver de quem? Vai viver de quê?
O sistema manipula sem ninguém saber
A lavagem cerebral te fez esquecer que andar com as próprias pernas não é difícil
Mais fácil se entregar, se omitir
Nas ruas áridas da selva
Eu já vi lágrimas demais, o bastante pra um filme de guerra

Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia...Gente pobre...

Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia é periferia...

Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia...Gente pobre...

Aqui a visão já não é tão bela...
Não existe outro lugar...
Periferia é periferia...

Um mano me disse que quando chegou aqui
Tudo era mato e só se lembra de tiro aí
Outro maluco disse que ainda é embaçado
Quem não morreu, tá preso sossegado
Quem se casou quer criar o seu pivete ou não
Cachimbar e ficar doido igual moleque, então
A covardia dobra a esquina e mora ali
Lei do cão, lei da selva... hã... hora de subir
(Mano, que treta, mano! Mó treta, você viu? Roubaram o dinheiro daquele tio!)
Que se esforça sol a sol, sem descansar
Nossa Senhora o ilumine, nada vai faltar
É uma pena, um mês inteiro de trabalho
Jogado tudo dentro de um cachimbo, caralho!
O ódio toma conta de um trabalhador
Escravo urbano, um simples nordestino
Comprou uma arma pra se auto-defender
Quer encontrar o vagabundo desta vez não vai ter... "boi"
Não vai ter "boi" (Qual que foi?)
Não vai ter... "boi" (Qual que foi?)
A revolta deixa o homem de paz imprevisível
E sangue no olho, impiedoso e muito mais
Com sede de vingança e previnido
Com ferro na cinta, acorda na... madrugada de quinta.
Um pilantra andando no quintal.
Tentando, roubando as roupas do varal.
Olha só como é o destino, inevitável
O fim de vagabundo, é lamentável
Aquele puto que roubou ele outro dia
Amanheceu cheio de tiro, ele pedia
Dezenove anos jogados fora!
É foda, essa noite chove muito porque Deus chora

Muita pobreza, estoura a violência...
Nossa raça está morrendo mais cedo...
Não me diga que está tudo bem...

Veveve... verdade seja dita...

Vi só de alguns anos pra cá, pode acreditar
Já foi bastante pra me preocupar com meus filhos
Periferia é tudo igual
Todo mundo sente medo de sair de madrugada e tal
Ultimamente andam os doidos pela rua
Louco na fissura, te estranham na loucura
Pedir dinheiro é mais fácil que roubar, mano
Roubar é mais fácil que trampar, mano
É complicado, o vício tem dois lados
Depende disso ou daquilo ou não tá tudo errado
Eu não vou ficar do lado de ninguém por quê?
Quem vende droga pra quem? Hã
Vem pra cá de avião, pelo porto ou cais
Não conheço pobre dono de aeroporto e mais
Fico triste por saber e ver
Que quem morre no dia a dia é igual a eu e a você

Periferia é periferia... Que horas são, não sei responder...
Periferia é periferia... Milhares de casas amontoadas...
Periferia é periferia... Vacilou, ficou pequeno pode acreditar...
Periferia é periferia... Em qualquer lugar... Gente pobre...

Periferia é periferia... Vários botecos abertos, várias escolas vazias...
Periferia é periferia... E a maioria por aqui se parece comigo...
Periferia é periferia... Mães chorando, irmãos se matando, até quando...
Periferia é periferia... Em qualquer lugar.... Gente pobre....

Periferia é periferia... Aqui meu irmão é cada um por si...
Periferia é periferia... Molecada sem futuro eu já consigo ver...
Periferia é periferia... Aliados drogados...
Periferia é periferia... Em qualquer lugar.... Gente pobre....

Periferia é periferia... Deixe o crack de lado, escute meu recado... cado... cado...






A letra dessa e de tantas outras músicas, poemas e obras da literatura marginal contemplam vidas interrompidas em sua possibilidade material e emocional. O modo como o autor expressa sua infelicidade em relação à sociedade é resultado da insuficiência financeira e também de carência de certos aspectos subjetivos como bondade, atenção, cuidado, carinho, amizade, amor. Os autores contam suas experiências como sobreviventes e testemunhas dos fatos ocorridos na periferia.

Caco Barcellos, enfatiza a ideia da ausência de representação na favela Santa Marta durante todo o contexto da obra. Por conta da morte precoce advinda da não transmissão de experiência entre as gerações, dos embates pelo poder entre grupos e do apagamento no sentido de história.

Fatos que resultam no rebaixamento da autoestima, anomia e desenraizamento comunitário.

Fato esse que traz revolta. Albert Camus argumenta em sua obra sobre a revolta do indivíduo “a afirmação implícita em todo ato de revolta se estende a qualquer coisa que ultrapassa o indivíduo, na medida em que usa mesma revolta o arranca à sua suposta solidão e lhe fornece uma razão para agir”. (Camus, O homem revoltado. p. 28).

Por toda essa reflexão em torno do pensamento de revolta de uma sociedade minoritária, seja ela racial ou socioeconômica, trazemos a tona a literatura voltada para a construção auto identitária, na contramão dos núcleos e das imagens hegemônicas.

Nesse contexto, há uma ligação entre as opressões periféricas e negras quanto à violência. Tomamos como exemplo, a série de textos do paulista Ridson, atuante no movimento Extremamente, de cordel urbano. Tratam-se de longos poema, com metrificação distribuída entre decassílabos e outros versos maiores, combinados em rimas regulares ou não, mesmo por assonâncias e aliterações, compondo uma musicalidade forte e agressiva.

“Barraco é cela, cadeia é favela / Viela é corredor, quarteirão é pavilhão e vice-versa / Que hora é essa? Interminável era / Mais de cinco séculos de plano Senzala se completam // (...) Plano Senzala: a lógica do sistema / Pobres gladiadores se matando numa arena / Irmãos divididos a fogo / Viciados, irados, armados. Povo contra povo // A diária tortura não me retira a ternura / Resistência é minha herança, minha cultura / Sobrevivo, resisto. É preciso / Sou o caco de vidro no prato do inimigo”. (FERRÉZ, Literatura marginal: talentos da escrita periférica).

O trecho acima faz referência a prisões e senzalas que seriam o sistema e a resistência de um povo que luta constantemente por sua sobrevivência.

Literariamente, classifica-se esse cenário refletido por Ferréz mais do que uma revitalização do realismo, um realismo voraz (neo-realismo, hiper-realismo, e ultra-realismo). Não se trata da linguagem em si, mas do estilo de linguagem com o objetivo de protesto social.




CONSIDERAÇÕES FINAIS



Entendemos não somente a nomenclatura classificatória e identitária de marginal, mas também o sentido da “problemática” de diversos ângulos.

Por meio de experiências autências, nossos personagens nos auxiliaram a desvendar poemas e obras diversas que exprimem literariamente a revolução das gerações minoritárias.

Classificamos de forma crítica, poemas e letras de música para uma visão mais ampla do significado do estilo de linguagem realista.

Levamos em conta artistas periféricos que exprimem o dia-a-dia das favelas e o sistema no qual estão inseridos, por meio da revolta feroz das palavras e o poder que elas tem de provocar reações, sentimentos e até mudanças na vida do leitor.

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